Histórico

A história do projeto Grãos de Luz e Griô foi construída pela história de vida de muitas pessoas e entidades, seus afetos, saberes, conflitos e sonhos de um mundo melhor. É impossível citar todas, tampouco seus diversos pontos de vista e contribuições. Escolhemos aqui uma linha do tempo e da vida de pessoas e entidades que justificam o Projeto como ele se encontra hoje.

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Em 1993, lideranças femininas da comunidade de Lençóis -Sra. Maria Luiza e mães da comunidade, mais tarde apoiadas pela Sra. Zélia Caribé – tiveram a iniciativa de produzir e distribuir uma sopa comunitária para as crianças de famílias de baixa renda do Alto da Estrela, bairro periférico da cidade. Nesta mesma época Manoel Alcântara desenvolvia um projeto de horta comunitária com crianças e adolescentes da comunidade. Foi assim que Jane da Silva Pellaux, brasileira, então residente na Suíça, em uma de suas visitas regulares a Lençóis, propôs a integração destas e outras iniciativas, com o seu apoio e de amigos da Suíça, para a criação de um projeto de educação para crianças e adolescentes.

Nasceu o Grãos de Luz no espaço das madres da Igreja Católica de Lençóis, unindo as inciativas anteriores com oficinas de artesanato e reforço escolar. Mais tarde, a iniciativa foi apoiada pela argentina Jimena Paratcha, ex-moradora de Lençóis que passou a residir na Inglaterra, e Jimmy Page, guitarrista do Led Zepellin. Todas essas lideranças se vincularam pelo sonho de criar e apoiar projetos de educação e proteção às crianças e adolescentes do Brasil. Grãos de Luz lembra mitos de chamamento do diamante dos garimpeiros da região. Além disso, no imaginário social é muito freqüente a criança ser associada a uma semente. A palavra luz, por sua vez, remete a sabedoria.

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Em 1997, apesar de existir um interesse claro de muitas lideranças em fundar juridicamente o Grãos de Luz, optou-se por uma parceria com uma associação local para institucionalização dos financiamentos dos Amigos da Suíça (coordenado por Jane da Silva Pellaux) e ABC Trust da Inglaterra (coordenado por Jimena Paratcha). Essas entidades estão até hoje entre as mais importantes da rede de solidariedade e responsabilidade social que sustenta o Grãos de Luz e Griô.

Em 1998, Líllian Pacheco realizou um processo de avaliação das oficinas, criou e coordenou junto com Márcio Caires o projeto pedagógico intitulado Oficinas Grãos de Luz, com o objetivo central de transformar as oficinas ocupacionais em oficinas educativas de fortalecimento da identidade afetiva e cultural dos participantes. O Projeto se inspirou em referências metodológicas da educação biocêntrica de Ruth Cavalcante e Rolando Toro; na psicologia comunitária de Cezar Wagner Góis; na arte-educação; na pedagogia de Paulo Freire; e na participação nas políticas públicas de Elenaldo Teixeira.

De 1999 a 2002, Líllian Pacheco presidiu o Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente, estruturando-o, fundando o Conselho Tutelar local, quase único em toda a região, e propondo o primeiro regimento e Plano Municipal da Criança e do Adolescente.

Ainda em 1998, os resultados das oficinas Grãos de Luz foram reconhecidos pela Secretaria de Educação de Lençóis. O secretário e professor Delmar Araujo convidou a coordenadora pedagógica e educadora Líllian Pacheco e o educador Márcio Caires para a facilitação de vivências na semana pedagógica municipal, e elaboração de um projeto de formação de educadores municipais.

O projeto de formação para educadores, propôs o encantado de Márcio Caires, caminhante na zona rural, que aprende os saberes e fazeres dos mais velhos e ensina para as crianças por meio do encantamento e da vivência com rodas de contações de histórias, mitos cantigas, brincadeiras de roda e ofícios tradicionais das comunidades.

O encontro com a ideia do griô africano, contador de histórias da tradição oral, se deu pela caminhada de Márcio nas comunidades, seu contato com os mestres griôs, principalmente Velho Dunga. E por meio da parceria entre a educadora Líllian Pacheco e o etnólogo Ardaga Widor, na criação e facilitação de rituais de passagem para adolescentes negras.  

Assim foi nomeado o Projeto Griô e o Velho Griô como figura mítica e política que representou e sensibilizou o imaginário social da comunidade participante, bem como a postura e metodologia dos seus pesquisadores, educadores e coordenadores.

O Projeto Griô priorizou o objetivo de mobilizar, encantar e capacitar educadores das escolas rurais e urbanas. Envolveu mil crianças e adolescentes, fortalecendo a identidade dos participantes e o vínculo afetivo e cultural entre 11 escolas e comunidades, além de desenvolver e sistematizar práticas de educação inovadoras.
O fortalecimento da identidade dos educadores e a parceria com a Secretaria de Educação, baseada no diálogo e no desenvolvimento da consciência crítica, motivaram a fundação da Associação de Professores Municipais e a reestruturação e participação social no Conselho Municipal de Educação.

Durante os anos de 2000 e 2001, o Projeto Griô participou do Programa Crer Para Ver (*1), sendo acompanhado pedagogicamente pela educadora Fátima Freire, então coordenadora do Programa. O Projeto teve sua prática de educação de tradição oral nas escolas divulgada nacionalmente em jornais e televisões (*2) por ter sido considerada inovadora na rede pública. Durante os encontros de formação do Programa Crer para Ver, consultores da área, como Miguel Arroio e Madalena Freire, potencializaram os sonhos do Projeto em sistematizar as práticas de educação que valorizassem os rituais na escola.

Foi neste período que as oficinas Grãos de Luz e o Projeto Griô ficaram sem espaço físico para a realização de suas atividades. Os educadores trabalharam nas ruas, em suas casas e em espaços cedidos pela comunidade para manter o atendimento às crianças e aos adolescentes, apresentando peças teatrais e exposições nas escolas públicas e no Festival de Inverno de Lençóis, sensibilizando o poder público municipal e empresários locais.

Em 2001, a crise da falta de espaço, a falta de autonomia administrativa e jurídica dos projetos e o sonho da sistematização de práticas educativas motivaram os educadores Líllian e Márcio a mobilizarem as mães, as crianças, adolescentes e jovens que cresceram nas oficinas Grãos de Luz, os educadores do projeto e das escolas, parceiros empresários locais (Canto das Águas e Venturas e Aventuras), e a própria coordenadora dos Amigos da Suíça, Jane da Silva Pellaux, a fundar a associação Grãos de Luz e criar uma rede de solidariedade e responsabilidade social com parceiros locais, nacionais e internacionais. A fundação da associação contou ainda com o apoio declarado das líderanças que criaram suas primeiras idéias e ações em 1993 e da parceria da ABC Trust.

A rede de solidariedade e responsabilidade social viabilizou o pagamento das despesas do aluguel de um imóvel amplo no Centro Histórico de Lençóis e a sistematização da missão, objetivos, princípios, estratégias, termos de parceria e atividades regulares autônomas dos Projetos que integrados receberam o nome de Grãos de Luz e Griô. Nessa nova etapa, a associação passou a realizar avaliação e planejamento institucional e integração de equipe, criar metas e indicadores de resultados e a registrar coletivamente suas atividades.

(*1) Programa Crer para Ver, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, financiado pela Fundação Abrinq e Natura Cosméticos. (*2) TV Cultura SP, programa Caminhos e Parcerias com Neide Duarte, produção Max Eluard; TV Globo RJ, programa Ação, com Serginho Groisman, produção Marcos Figueiredo.

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Em 2002, o projeto Grãos de Luz e Griô expandiu a caminhada do Velho Griô para 15 municípios da Chapada Diamantina, por meio de um diálogo dramatizado, cantado e dançado entre uma lavadeira (representando a sociedade civil), uma fazendeira (representando o poder privado), e o homem do governo (representando o poder público). A caminhada mobilizou o diálogo entre mais de mil representantes dos três setores (poder público, grupos culturais, agricultores, fazendeiros e empresários) sobre o tema gerador do ano – a água na Chapada Diamantina, trabalhado nas oficinas Grãos de Luz.

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Em 2003, o Projeto Grãos de Luz e Griô conquistou o primeiro lugar, entre 1.834 projetos do Brasil, no Prêmio Itaú Unicef de “Educação e Participação” coordenado pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) com o tema “Muitos Lugares para Aprender”.

Neste ano o projeto trabalhou a questão das relações de gênero no município, numa perspectiva de desenvolvimento integral da criança e do adolescente e a identidade cultural local. Aprofundou seus estudos e pesquisas da tradição oral dos griôs do Brasil e do noroeste da África, inventando a Roda da Vida e das Idades para a recriação do currículo de educação de Lençóis.

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Em 2004 e 2005, o Projeto pesquisou o tema gerador “Griô: a tradição viva”. Contou com o apoio da Brazilfoundation, com práticas da pedagogia nagô de Vanda Machado e com a arte-educação de Carlos Petrovich (assessores na criação do currículo de educação afro-brasileira baseado no decreto 10.639/2003).

A parceria do Cenpec, através do Prêmio Itaú Unicef, agregou novos valores e referências ao Grãos de Luz e Griô. Como consequência, o Projeto tornou-se um dos participantes dos festivais internacionais de artes populares coordenado pela ONG Abrasoffa (em São Paulo e na Galícia, Espanha); ampliou seus espaços na mídia; melhorou sua infra-estrutura e, junto aos Amigos da Europa garantiu a continuidade e crescimento de sua rede de solidariedade e responsabilidade social, para reestruturação das oficinas Grãos de Luz e aquisição do imóvel que alugava no Centro Histórico de Lençóis.

No Festival Internacional da Galícia-Espanha, o Projeto realizou rituais de vínculo e aprendizagem com 26 participantes de Lençóis, da criança ao velho, interagindo com aproximadamente 5 mil pessoas. A convivência afetiva e cultural entre os grupos culturais na Galícia inspirou a fundação da Associação Lena – Lençóis Narón (Galícia, Espanha) – mais uma entidade criada na Europa para educação e proteção às crianças, adolescentes, jovens e griôs de Lençóis.

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Em 2005, o Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura reconheceu o Projeto Grãos de Luz e Griô como um Ponto de Cultura do Brasil.

Em 2006, a coordenação do projeto propôs ao Ministério a Ação Griô Nacional, que articula redes, entidades e grupos de educação e cultura de todo o País.

De 2007 a 2011, a coordenação do projeto Grãos de Luz e Griô, criou uma gestão compartilhada com 7 pontos de cultura (coordenações regionais), assessorias pedagógicas e o MinC, promovendo atividades de criação e lançamento de dois editais e articulando em torno de R$ 7.500.000 de fundo para bolsas de incentivo e atividades com griôs e mestres de tradição oral. Realizou 25 encontros regionais e nacionais de capacitação, avaliação e planejamento da Ação Griô Nacional mediado pela pedagogia griô, com mais de 5.000 pessoas, formando a primeira rede nacional de educação e tradição oral  com 600 Pontos de Cultura do Brasil, escolas e universidades parceiras; sistematizou e publicou o portal, livro, filme, jogo de trilha, monografias e teses para compartilhar em mais de 5.000 exemplares de produtos didáticos, os saberes da pedagogia griô com entidades de educação e cultura em todo o país. A Coordenação do Grãos de Luz e Griô articulou a sustentabilidade e coordenação nacional da rede em parceria com a Votorantim e MinC, recebendo primeiro lugar no prêmio de democratização cultural do Brasil, e com este recurso de um milhão, apoiou o desenvolvimento das redes sociais de base entre pontos, escolas, universidades, comunidades e instituições públicas e privadas, que geraram um impacto social que envolveu mais de 130.000 estudantes, educadores, coordenadores, secretários de educação e cultura.